quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Fotos: Trote Arquivologia 1º/2010

Todo mundo limpinho...









...até que...













Ainda bem que eu não tava lá...rsrsrs

Depoimento de uma psicóloga: "Trote universitário: como precisamos dele"

Fui acompanhar minha filha em sua matrícula na universidade, em São Paulo. Cada uma de nós trazia consigo um misto de sentimentos de todo tipo e intensidade. Do susto à euforia, havia de tudo. E, após a tarefa de preencher formulários, apresentar documentos e formalizar, afinal, o ingresso à faculdade, rumaríamos, então, para o mais desejado momento, o trote. O trote já deu pano pra manga, já foi notícia da mídia, tema de palestras, de pesquisas, e como presenciei de perto, novamente, essa atividade, vou aqui explorar um pouco desse assunto.

O ser humano, desde que nasce, começa a ser tolhido em suas manifestações. Das coisas mais sutis às mais marcantes, são muitas as castrações. “Não pode morder seu irmãozinho”, “tira o dedo do nariz”, “larga o rabo do cachorro”, “dá um pedaço do doce pra sua amiguinha”, “espera a sua vez na fila”, “cocô e xixi tem de fazer no banheiro” e muitos outros. É uma lista interminável e constante de limitações. Precisamos delas para que possamos nos humanizar, caso contrário, se houvesse liberdade absoluta e irrestrita, seríamos selvagens. Freud já havia dito que para que haja civilização é preciso reprimir o ser humano, senão seria impossível a convivência. A passagem de um estado regido pelo princípio do prazer para aquele do princípio da realidade é o desafio pelo qual todos temos de passar para nos capacitarmos a estar com outros, nas diversas relações, sociais, profissionais, amorosas. Isso provoca um mal-estar, também já dito por Freud, o mal-estar da civilização, um estado inevitável de desconforto pelas repressões que sofremos, ao mesmo tempo necessárias para uma vida humana.

O mesmo se dá com a Educação. A escola é uma instituição repressora, por mais que seja liberal em sua filosofia. Também acaba uniformizando, achatando e inibindo a individualidade. As tentativas de maior liberação na escola apresentaram muitos problemas, justamente pela dificuldade de se manter uma harmonia suportável, assim como o próprio desenvolvimento da maturidade na criança.
Penso que, sabiamente, criamos, então, momentos de escape às repressões, situações em que podemos “sair da linha”, porém com um consentimento social, sem que sejamos execrados, presos ou internados em sanatórios. Assim o Carnaval e o trote universitário são exemplos do que estou tentando dizer.

O Carnaval é um tempo em que podemos voltar a brincar sem parecermos tão idiotas. Na época da minha juventude falávamos em “pular” o Carnaval. Quando pulamos, nós adultos, se não for num carnaval? Outra oportunidade está nas fantasias, em que podemos incorporar personagens e liberar e vivenciar, finalmente, aspectos de nosso ser cujo controle tememos perder.   É o momento, então, de vermos, nas passarelas carnavalescas, homens vestidos de mulher, meninas vestidas de princesa, mulheres fantasiadas de odaliscas, fantasias de animais e por aí afora. Os atores também encontram, em suas atuações, a possibilidade de explorarem aspectos de sua personalidade que, por várias razões, estejam ocultos ou mal desenvolvidos.

E o trote universitário também oferece essa clareira em meio à civilização. Não se joga um vidro de tinta na cabeça de uma pessoa que você nem conhece, sem ser muito xingado e até linchado, dependendo da tolerância da pessoa. Mas no trote isso é possível. Minha filha ficou irreconhecível – claro que também pelo impacto de não vê-la mais como criança. O rosto e o corpo pintados, a roupa que escorria tinta, muita risada e um rápido entrosamento, que da “maneira civilizada” talvez fosse mais difícil de acontecer. Ela mesma me disse que dessa forma as pessoas se conhecem mais rapidamente. Ou seja, o trote quebra o gelo e a tensão diante de um momento em que o jovem está vivendo uma ruptura da família e tem de fazer enfrentamentos nunca dantes feitos. É ainda um momento de brincadeira à porta do mundo adulto.

O veterano, diante da tarefa de receber e cuidar dos calouros, tem a oportunidade, então, de escapar de seus lugares de repressão. É aí que aparece o sadismo que todos nós trazemos em nosso repertório pulsional. E dá-lhe tinta na cabeça, dentro das orelhas, atira-se o outro na lama, usa-se e abusa-se da autoridade de mais velho e, de quebra, vinga-se daquele que ainda vem cheio de ilusões e inocências, coisa que a essa altura o veterano já perdeu.

E assim caminha a humanidade, buscando espaços de alívio em meio a tantas pressões e repressões. O problema, nisso tudo, está na clareza dos limites que, apesar de tudo, também estão presentes nessas situações de maior liberação. São os limites do ritual em si e os limites particulares de cada um. A fronteira que separa a liberação saudável, digamos, da perversa baseia-se na intensidade dos atos. Da graça à desgraça, o caminho é um só, dependendo, apenas, do controle e equilíbrio presentes na experiência.

Por isso essas situações possuem um “quê” de perigo, elemento que as torna mais atraentes ainda. Brincar sobre essas fronteiras é provocar a tensão em torno da nossa capacidade de colocarmos limites claros para nossos impulsos violentos e sexuais. Vida e morte estão juntas o tempo todo. Mas, se a experiência consegue marcar-se pelo status de brincadeira, realmente, ela proporciona o alívio, o contato com aspectos conflitivos, e confere legitimidade ao que precisa ser vivenciado.

De qualquer maneira não nos escapamos dos limites. Uma vida sem essa condição é utopia.


Élide Camargo Signorelli
Psicóloga com formação psicanalítica pelo S.P.CAMP, Sociedade Psicanalítica de Campinas, e especialização em adolescência pelo Departamento de Psiquiatria da FCM da Unicamp.

Trote cidadão

Temendo novos casos de violência excessiva, as universidades (principalmente as públicas) criaram mecanismos para evitar o trote. Sua prática já passou a ser motivo para o veterano ser “jubilado”, ou seja, expulso da instituição. Além disso, o trote solidário ou cidadão passou a ser estimulado nessas instituições, em iniciativas que partem, muitas vezes, dos próprios veteranos. 


Ao invés de violência e humilhação, durante o trote cidadão, veteranos e calouros integram-se em práticas saudáveis e benéficas: doam sangue, plantam árvores, divertem crianças em instituições, pintam muros de escolas, arrecadam alimentos e participam de campanhas para doá-los a comunidades carentes. 

Desta forma, o ingresso na universidade passa a ser não só um prêmio para os calouros, mas também para crianças, comunidades e o próprio meio ambiente, que recebem as boas ações. Em benefício dessas atitudes é que em 1999, a Fundação Educar Dpaschoal criou o conceito Trote da Cidadania que, atualmente, transformou-se num Prêmio. A premiação de iniciativas saudáveis e sociais é um incentivo para que os veteranos acabem de vez com a prática violenta do trote. 

É claro que um pouco de tinta no rosto e comemorações entre veteranos e calouros fazem parte das “calouradas” (as festas de recepção dos novatos). De forma leve e com a permissão dos novatos, tudo fica divertido e só favorece a formação de novas amizades.